Uma expedição inusitada: caminhando pelas águas do Rio Verde

por Daiani Mistieri*

Nem a garoa fina, nem o ventinho que insistia em bater, afastaram arquitetos, jornalistas, gestores ambientais e cidadãos, do desejo de estar junto ao Rio Verde, na Vila Madalena – São Paulo, num domingo pela manhã.

a região do Sumaré na primeira metade do sec XX e hoje: à esquerda, no alto, o Cemitério do Araça e a Av. Municipal (hoje Dr. Arnaldo); descendo pelo centro da foto para o canto direito baixo a Av. Afonso Bovero; na foto atual é possível ver a Av. Sumaré (vale do Rio Sumaré- Água Branca), o viaduto de onde saímos e a Av. Paulo VI (vale do Rio Verde).

Os grupos que se dividiram em 3 turmas, de aproximadamente 25 participantes cada, saíram:

  • Estação Vila Madalena contemplando o braço oeste do rio
  • Estação Sumaré caminhando pelo braço leste
  • Parque do Ibirapuera, todos de bicicletas e munidos de ferramentas e mudas de árvores para fazer plantios pelo caminho.

Por aqui passa um rio...

O projeto, que já existe há um ano, fez parte da Escola de Inverno do Hub e foi organizado José Bueno, Luiz de Campos (Rios e Ruas) e Juliana Gatti (Árvores Vivas).

O município de São Paulo que ficou cerca de 20 dias sem uma gota sequer de chuva, ontem recebeu muita água. Para José Bueno,  depois de muitos dias sem chuva na cidade o rio deu um jeito de fazer chover. “Ele não queria estar seco e abatido para receber tanta gente que deseja encontrá-lo. Essa tolice boa eu não troco por nada”, complementou.

Tolice ou não, suas águas estavam mais claras, o clima especial e assim foi possível a reflexão sobre os 12 meses do ano que ele flui por debaixo dos nossos pés e pneus.

Segundo Luiz de Campos, é no verão, época das chuvas em nossa cidade, que temos maior oportunidade de perceber dois fatos irrefutáveis: a existência dos rios escondidos e a forma equivocada como a urbanização de São Paulo trata seu rios. Os chamados “pontos de alagamento intransitáveis”, tão comuns durante e após as pancadas de chuvas de verão, estão invariavelmente relacionados à existência de rios e riachos escondidos.

Com a percepção aberta para reconhecer, ouvir e sentir, os grupos foram unânimes em dizer que os rios estão vivos e que não devem ser tratados apenas como recursos hídricos. Para os organizadores a ideia é que em um curto prazo de tempo exista na cidade, disponível para todos os cidadãos, um mapeamento de rios, assim como temos os mapeamentos de ruas.

Durante todo o trajeto foi observado que as pessoas não tomam as ruas como parte do dia a dia. Por onde se passou, viu-se ruas desertas de gente. O espaço foi apenas divido com carros.

Segundo Silvia Bressiani, arquiteta que participou da expedição, quando muda a arquitetura e a vegetação das ruas, o cheiro e a temperatura também mudam.

Para Juliana Gatti, esse tipo de atividade proporciona às pessoas a possibilidade de estar em sintonia com as árvores e vegetação que fazem parte do nosso dia a dia e que muitos desconhecem ou não percebem. Árvores Vivas esteve durante a expedição junto com os ciclistas do Pedal Verde.

Para o grupo ficou muito mais que um simples passeio urbanístico pela cidade. Ficou emoção e uma nova percepção sobre a natureza viva de São Paulo. Ficou desejo por parques lineares, ficou desejo de celebração com arte. Ficou vontade de ver o rio sem grades, livre para fluir.

Para Gustavo Prudente, o exercício de olhar o rio nos olhos é fundamental para termos uma nova percepção.

Segundo Cyra Malta, do Pedal Verde, esses movimentos devem seguir, já que é possível ser feito algo. “Somos exemplos para outras cidades, devemos mostrar que os rios não devem ser entubados”, disse.

O rio nos chama, pede para que olhemos e ajudemos. Em troca ele nos devolverá generosidade, água limpa, clima e vida. Não podemos nos afastar de quem devemos reverenciar.

“Nossas percepções foram soterradas junto com os rios, isso apaga nossa relação com a cidade, não podemos permitir isso!” disse José Bueno.

No final da expedição os três grupos se encontram na praça Gastão Vidigal e fizeram uma linda colheita de sensações, além de plantar uma muda de Uvaia.

Com instrumentos já conhecidos e outros criados para a ocasião, Fred Dale, da Usina Poética, convidou todo o grupo que percorreu o braço oeste a cortejar e agradecer ao rio por estar vivo.

Segundo Fred, ele buscou trazer instrumentos que simbolizassem os rios, nossa pulsação e a oxigenação das águas.

Durante o cortejo foi lido um poema se sua própria autoria chamado Reativerde.

Visitando o rio...

Um pouco sobre a missão do Árvores Vivas

Sensibilizar as pessoas em relação as árvores e natureza que habitam nosso entorno, praças, parques e caminhos do dia a dia. Promovendo este contato apreciativo através de informações históricas, culturais e científicas de maneira acessível para todas as idades e sempre criativa.

*Daiani Mistieri é jornalista e cidadã socialmente responsável. É Gestora Executiva do Instituto Harmonia e apenas participa de projetos em que acredita. Rios e Ruas e Árvores Vivas são alguns deles.

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2 pensamentos sobre “Uma expedição inusitada: caminhando pelas águas do Rio Verde

  1. Que delicia poder participar dessa expedição! Um privilégio para muitos, basta querer ir!

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