A Água na Cidade*

* Histoire d’un ruisseau (História de um regato), 1869, cap. XVIII, tradução de Murilo Lisboa para o site http://www.terrasraras.com.br de Fernando José Gomes Landgraf.

Élisée Reclus (1869)

Nos nossos países da Europa civilizada, onde o homem intervém em tudo para modificar a natureza a seu gosto, o pequeno curso d’água deixa de ser livre e torna-se coisa dos ribeirinhos. Usado ao gosto desses, seja para regar suas terras, seja para moer o trigo; no entanto, seguidamente, eles também não sabem utilizá-lo de forma útil; eles o aprisionam entre os muros mal construídos que a correnteza de suas águas demole; versam as águas para zonas onde elas se tornam poças pestilentas; enchem de lixo que deveriam servir de adubo para seus campos; transformam o alegre regato em um imundo esgoto.

Aproximando-se da zona industrial, o regato se emporcalha de mais em mais. As águas domésticas das casas às suas margens se misturam a sua corrente; viscosidades de todas as cores alteram sua transparência, impuros fragmentos recobrem suas praias enlodaçadas, e, quando o sol as secam, um odor fétido impregna a atmosfera. Então, o regato transfigurado em cloaca adentra a cidade, onde seu primeiro afluente é um esgoto horrendo, com uma enorme boca oval, fechada com grades. Quase sem correnteza, por causa da ausência de queda, a massa pastosa rola lentamente entre duas fieiras de casa de muralhas recobertas de algas esverdeadas, madeirames metade roídos pela umidade e rebocos que caem em escamas. Para estas casas, usinas doentias onde trabalham os homens do curtume e tanino e outros industriosos, essa corrente enlamaçada é ainda uma riqueza e sem cessar os trabalhadores utilizam essas águas nauseabundas. O beira-rio perdeu toda a forma natural; são agora muros perpendiculares onde, aqui e acolá, constroem-se degraus de escadas; as margens são pavimentadas de lajes escorregadias; os meandros são trocados por bruscas curvas; no lugar de galhos e folhagens, roupas sórdidas suspensas em varais se balançam sobre a fossa, e barreiras em pranchas, jogadas de um cais a outro, marcam os limites das propriedades sobre o fluxo encardido. Enfim, a massa pastosa penetra sob uma sinistra arcada. O regato que eu vi nascer sob a luz, tão límpido e alegre, fora da fonte natal não é mais senão um esgoto no qual uma cidade lança seu lixo.

Poucos quilômetros de intervalo, o contraste é absoluto. Acima, no campo livre, a água cintila ao sol, e transparente, apesar da profundidade, deixa ver os seixos brancos, a areia e as ervas tremulantes no seu leito; ela murmura docemente entre as ninféias; os peixes se lançam pelas correntes como flechas de pratas e os pássaros tocam suas asas em rasantes. Flores nascem em tufos sobre as margens, as árvores cheias de seiva estendem distante seus galhos e aquele que caminha passeando nas margens pode a seu gosto descansar na sua sombra contemplando o gracioso quadro que se alonga entre dois meandros. Que diferença do regato sob o pavimento ressoante da cidade! A água que é a mesma na sua substância, mas só para o químico;  ela está misturada a tantas imundíces que se tornou viscosa. Não há mais luz  na sombria avenida, se não fosse de tempos em tempos um raio de luz que passa entre duas barras de ferro repercutindo na parede viscosa. A vida parece ausente nestas trevas; no entanto ela existe: cogumelos alimentados pela podridão brotam nas quinas; os ratos se escondem nos buracos, entre pedras deslocadas. Os únicos passantes que se aventuram nesta triste estadia são os que trabalham no esgoto para restabelecer o fluxo, retirando o entulho de lama, e os “devastadores”, famélicos industriais,  pendurados sobre a papa fétida, a remoendo com as mãos para encontrar as mínimas moedas ou outro objeto caídos da rua pelos suspiros.

Enfim, a massa infecta ajudada, seja pelo ancinho dos trabalhadores, seja pelos súbitos aguaceiros, chega ao rio e aí se derrama pesadamente. Negra ou violácea, ela escala o longo do cais, permanece distinta da água relativamente pura da corrente por uma linha sinuosa, nitidamente traçada. Demoradamente a seguimos com os olhos escorrendo ao lado do rio, se recusando a se misturar com ele; mas os turbilhões, os remoinhos, os refluxos de todos os tipos causados pelas desigualdades do fundo e as sinuosidades das margens têm como resultado a mistura das águas; a linha de separação se apaga pouco a pouco, grandes nódoas transparentes surgem do fundo através da massa enlamaçada; os impuros aluviões, mais pesados do que a água que carregam, se depositam sobre as praias e as depressões do leito. O regato se purifica cada vez mais; mas ao mesmo tempo ele deixa de ser ele mesmo e se perde na potente massa líquida do rio que o conduz para o oceano. Sua corrente se divide em fatias, e essas são divididas em gotas, todas as moléculas se confundem. A história do regato termina, ao menos nas aparências.

No entanto, a boca do grande esgoto não vomitou no rio toda massa de água que rolava entre as margens sombreadas aquém da cidade e suas fábricas. Enquanto uma parte da corrente continua seguindo o leito natural, transformada em vala, depois em canal subterrâneo, pela mão do homem, para se arrastar pesadamente pela linha do cais, uma outra parte do regato, desviado de seu curso normal,  entra em um grande aqueduto e é encaminhado para a cidade seguindo o flanco de colinas, e passando por enormes sifões sob as ravinas. A água, protegida da evaporação pelas paredes de pedra ou de metal que a cercam, recebe na sua entrada da cidade um grande reservatório de alvenaria, tipo de lago artificial onde o líquido repousa e se depura. É deste lugar que escapa para se distribuir, de bairro em bairro, de rua em rua, de casa em casa, de andar em andar, pelos canos ramificados ao infinito sobre a imensa superfície habitada. A água é sempre indispensável; é necessário para limpar o chão e as moradias; é necessário para hidratar todos os seres vivos, do homem aos animais que o servem, até a flor mais modesta que  se  abre nas janelas das mansardas e o gramado que recebe o rocio da bruma irisada das fontes. Por seus milhões e bilhões de bocas e de poros absorvendo incessantemente capilares, pingos ou simples umidade originárias do regato, a cidade torna-se semelhante a um imenso organismo, um monstro prodigioso engolindo torrentes de um só gole. Há cidades que não se contentam  apenas com um regato, bebem ao mesmo tempo vários, recorrendo por todos os lados aos aquedutos que convergem. Uma capital – a verdade é que esta capital é Londres, a cidade mais populosa do mundo – não bebe menos que meio milhão de metros cúbicos por dia, o suficiente para encher um lago onde boiaria facilmente cem navios de bordo alto.

Depois de se ramificar ao infinito nas ruas e casas, a água dos aquedutos, já suja pelo uso e mistura com as impurezas de todos os tipos, deve retomar seu caminho para fugir da cidade onde ela engendraria a peste. Cada paralelepípedo, como uma boca imunda, vomita água doméstica, cada bica escorre sua pequena torrente nauseabunda; a cada quina de rua uma cascata vermelha ou negra se precipita nos meios-fios. Este manancial, único regato que a criança das nossas cidades pode  estudar, contribui em muito mais do que se pensa em fazê-lo amar a natureza. Recordo-me ainda: quando nos aguaceiros que haviam limpado os detritos  e lama das canaletas e preenchido seu leito até o bordo, nós construíamos nossas barragens, fechávamos a correnteza em desfiladeiros, fazíamos a água se precipitar em corredeiras, concebíamos a nosso gosto ilhas ou penínsulas. Adultos, os pequenos engenheiros que chafurdavam com tanto júbilo nas bicas não deixam de lembrar-se com prazer de suas brincadeiras de criança. Apesar da situação, olham com alguma emoção o fio d´água encardida que escorre ao longo da calçada. Desde a mais tenra idade, no espaço de uma geração, só fragmentos levados pela corrente viscosa encontraram o caminho para o mar! E o sangue de cidadãos que se misturou a esta lama.

As impurezas,  de todas as calhas laterais, irão se encontrar com o grande esgoto, que constantemente é o leito do antigo regato, de forma que a cidade se parece com os pólipos que têm um único orifício que se abre ao mesmo tempo para os alimentos e para os dejetos. No entanto, na maior parte de nossas avenidas subterrâneas em nossas cidades, houve o cuidado de estabelecer uma separação entre esses dois fluxos. Tubos de ferros justapostos servem de leito a dois riachos que escorrem em sentido inversos: um é  o fluxo de água pura que irá se ramificar nas moradias, o outro será a massa de água suja que escapa. Como no corpo do animal, as artérias e as veias se acompanham: um círculo ininterrupto se forma entre a corrente que carrega a vida e aquele que trará a morte.

Infelizmente, o organismo artificial das cidades está longe de parecer na perfeição aos órgãos naturais dos corpos vivos. O sangue venoso, caçado do coração para os pulmões, se renova em contato com o ar; se desembaraça de todos os produtos impuros da combustão interior e, recebendo de fora o alimento de sua própria chama, pode começar sua viagem do coração às extremidades, e levar o calor e a vida de artéria em artéria. Nas nossas cidades, ao contrário, corpos informes talham a organização, a água usada continua a escorrer nos esgotos e vai poluir os rios, onde ela não se purifica senão lentamente, sem ser retomada pela indústria humana para alimentar a cidade na circulação subterrânea. Mas essa depuração que a ciência do homem se engana em não complementar, as forças da natureza trabalham em harmonia com os habitantes das águas. Em todas as bocas de esgoto onde não se mergulha sem cessar o ávido anzol do pescador, uma multitude de peixes, amontoados muitas vezes em bancos, como arenques do mar, se refartam voluptuosamente com os restos dos festins carregados pela torrente enlameada; o limo das muralhas e das margens, as ervas tremulantes no fundo retêm também e fazem entrar na sua substância as moléculas da calda que as banham; os fragmentos mais pesados descem e se misturam aos gravetos, naufrágios são rejeitados sobre o bordo onde estancam em bancos de areia; pouco a pouco a água se clarifica, graças à fauna e à flora, que se desembaraça das substâncias dissolvidas que a desnaturalizariam, e se no seu curso ela não fosse suja de novo por outras impurezas que escorre de cidades ribeirinhas, findaria por retomar sua pureza primitiva antes de alcançar o oceano.

Na cidade do futuro, o que a ciência aconselha será também o que os homens farão. Já um número de cidades, sobretudo na inteligente Inglaterra, tentam criar um sistema arterial e venoso funcional com uma regularidade perfeita, religados um a outro, de forma a completar um pequeno circuito das águas, análogo àquele que se produz na grande natureza entre as montanhas e o mar pelas fontes e nuvens. Na saída das cidades, as águas de esgoto, aspiradas por máquinas, como o sangue o é pelo jogo dos músculos, se dirigirão para um grande reservatório coberto, onde o lixo levado será misturado em um líquido lodoso. Então, outras máquinas se encarregarão da massa fétida e a lançarão em jatos nos tubos radiais, em diversas direções, sob o solo dos campos. Aberturas, providenciadas de distância em distância sobre os aquedutos, permitirão transvasar o todo em quantidades mesuráveis sobre todos os campos empobrecidos que necessitam regenerar através do adubo. Esta vasa que escorre e que seria a morte de populações se se estabecesse nas cidades ou se escorregasse para os rios ao longo das margens, se torna, então, o contrário, a vida das nações, pois se transforma no alimento para os homens. O mais infértil dos solos e mesmo a pura areia dariam nascimento a uma vegetação luxuriante quando bebessem este líquido; por outro lado, a águam, que servia de veículo para todas as imundícies do esgoto, se encontraria limpa pelas operações químicas das raízes; recolhida subterraneamente para os canos paralelos aos aquedutos de água suja, ela poderia entrar na cidade para depurá-la e provisionar, ou então deixar verter nos rios sem que turve a corrente límpida. Enquanto que antes, além da primeira cidade no qual ele molhava o cais, o rio não era senão um canal de esgoto até o oceano, ele retomaria em nossos dias sua beleza dos tempos passados; os edifícios das cidades e os arcos das pontes, que durante séculos não se fazem refletir senão sobre uma onda turva, recomeçariam a se mirar em um fluxo transparente.

Ilustrações de Eloar Guazzelli para a edição da Éditions Plume De Carotte, Toulouse - France, 2007.

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Sobre Rios e Ruas

Promover o reconhecimento e a exploração in loco das cidades redescobrindo a natureza de rios soterrados por ruas e construções contribuindo assim para despertar em jovens e adultos uma compreensão afetiva sobre o uso do espaço urbano.

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