Ykiririm

Há algumas semanas fiz algo incomum pela manhã. Eu e meu amigo geógrafo Luiz de Campos saímos de bicicleta pelo Butantã, em São Paulo, para acompanhar e mapear o curso de um pequeno córrego, de sua nascente à sua foz. Na garagem de casa, fizemos emergir em nós o sentimento adequado para a expedição: abertura para reconhecer o entorno.

Partimos do alto de uma montanha e seguimos a busca das nascentes do Iquiririm. Para os índios a vida tranquila permitia a escuta dos grilos… quiriri, quiriri, quiriri. Daí o nome Ykiririm, “rio silencioso” em tupi antigo.

Nosso olhar buscava enxergar além das construções, das calçadas e ruas pavimentadas de uma cidade grande que mantém a natureza de seus rios escondida de seus cidadãos. Mantivemos o olhar aberto para compreender a arquitetura natural de montanhas, cabeceiras, nascentes e rios. O exercício de redescobrir a natureza sob o asfalto e o concreto foi algo especial e inesquecível.

Logo achamos uma pequena mata repleta de taiobás, uma planta que gosta de terreno úmido. Primeiros sinais. Em seguida reconhecemos a primeira nascente a trezentos metros de casa. E mais uma, e outra, e muitas. Anfiteatros, cabeceiras, olhos-d’água, vertentes e também esgotos encorpando o fluxo sofrido de um rio canalizado sob casas, mercados, escolas, estacionamentos. Em alguns trechos, as ruas acompanhavam o seu percurso e, deslizando sobre as bicicletas, sentimos a escolha que o rio faz pelo percurso mais suave e elegante.

Depois de alguns quilômetros acompanhando seu curso, chegamos ao ponto final num grande terreno ocupado por uma construtora, à espera de um novo edifício comercial. O Iquiririm logo desagua no Pirajussara, ainda mais longe do nosso olhar. Em breve, o Rio Silencioso não será mais ouvido, nem apreciado, e talvez seja somente lembrado por aqueles que perguntarem: o que fizeram com os rios da nossa cidade?

José Bueno

Veja as fotos da exploração em Iquiririm das Nascentes à Foz.

[publicado em dezembro de 2010 em http://pontos.dharma.art.br/y-kiririm-0]

Ykirirm2

Fragmento da carta "São Paulo - Projeção hiperboloid com rede kilométrica", esc. 1:40.000 (original), Editora Comp. Melhoramentos, 1952 (3a ed.)

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